VAN TIL: Da "pressuposição" à antítese.

"Alguns escritores entendem uma pressuposição como sendo uma mera hipótese, suposição ou postulado - uma crença escolhida arbitrariamente, sem base racional. Este não é o entendimento de Van Til, e ele não deve ser assumido em discussões sobre o holandês. Para Van Til, pressuposições cristãs têm a base racional mais sólida, a saber, a revelação de Deus. Inclusive, pressuposições cristãs são mesmo comprováveis em certo sentido, (...) Nem Van Til usa "pressuposição" para se referir a uma hipótese adotada para consideração, como faz, por exemplo, Edward J. Carnell. Para Van Til, pressuposições são categóricas, não hipotéticas. Nem nós deveríamos enfatizar o "pre-" em "pressuposição" para sugerir que pressuposição deve ser em algum momento anterior a todo os nossos outros conhecimentos. O "pré" em "pressuposição" refere-se à "pré-eminência" da pressuposição com respeito às nossas outras crenças. Van Til diz, "A consciência do "eu"(self) e dos objetos pressupõem a inteligibilidade da auto-consciência de Deus. Afirmando isso, nós não estamos pensando em prioridade psicológica ou temporal. Nós estamos pensando apenas na questão de qual é a referência final de interpretação."


Ocasionalmente se pergunta, Como podemos esperar que as pessoas pressuponham a Revelação de Deus antes de virem a acreditar n'Ele? As respostas são: (1) Todos conhecem Deus em virtude da Revelação Natural (Rm 1).[1] Aqueles que escolhem não crer n'Ele fazem-no contradizendo seu próprio conhecimento. (2) Mesmo se pressupondo que Deus requeresse conhecimento em adição ao que já temos, a ausência desse conhecimento não invalidaria a obrigação de pressupor Deus. Antes, essa obrigação implicaria uma obrigação maior de ganhar conhecimento adicional. (3) Mesmo que a condição de pressupor a revelação de Deus fosse impossível de ser seguida, o fato não invalidaria essa verdade. O Calvinismo tipicamente ensina que Deus comanda o que o homem depravado não consegue fazer apartado da graça."


[John Frame, "Van Til: An Analysis of His Thought", 110.]


Van Til usa o termo "pressuposição" para indicar o papel que a revelação precisa ter no pensamento humano. Frame define o termo como "comprometimento básico do coração". Trata-se do comprometimento com a autoridade máxima de um sistema de pensamento, não com o ponto de início próximo do raciocínio. 

Mesmo concedendo a certos opositores, um van tiliano pode esclarecer que o"eu" pode ser o ponto de início "próximo", na ordem racional, enquanto Deus é o "ponto de início" máximo, que deve governar o ponto próximo (diferença entre ordem epistemológica e ordem metafísica, à qual não me aprofundarei aqui). 


Para o cristão, o comprometimento é para com Deus conforme Ele revela a si mesmo em sua Palavra. Se a Palavra é infalível, nós não podemos aceitar nada que entre em conflito com ela.


O marxismo negou a religião porque, antes, pressupõe (1) a inexistência de verdades objetivas e (2) a história como movida por uma luta de classes, tendo o interesse econômico e os meios de produção como sendo a infra-estrutura por onde erguer-se-ia as mentiras alienantes da religião, usadas por uma ou mais classes para oprimir as demais.


O cristianismo tem o compromisso com um Deus absolutamente bom (e verdadeiro), que predestina a história através de sua Providência.


Em ambos os casos, podemos ver a pré-eminência de compromissos que afetarão todas as áreas do conhecimento, como Van Til também chamava de forma sinônima à "pressuposição", os "pontos de referência". 


A existência de uma verdade objetiva dos cristãos e sua inexistência, conforme creem os marxistas, apresentam entre si uma relação de antítese total. Se o bem e o mal não existem, como afirmava Marx, então a ordem social influenciada pela igreja seria apenas um mecanismo de alienação. Mais do que isso: se alguém rejeita verdades absolutas, ele não considerará a Bíblia como conhecimento real; enquanto, na contramão, ela é conhecimento válido - e fundamental - para um cristão. Em outras palavras, pressuposições distintas formarão diferentes visões sobre conhecimento verdadeiro e falso, e consequentemente formarão diferentes visões a respeito de "evidências" e "provas". Pressuposições diferentes criam diferentes ciências.


Destarte, "raciocinar por pressuposições" é o mesmo que o argumento transcendental para o Cristianismo. Enquanto apologética, o trabalho do cristão é fazer, por exemplo, o marxista reconhecer a inconsistência interna de seu próprio pensamento: se "bem e mal" não existem, a alienação não é má e não há imperativo moral para reprimi-la. Se verdades absolutas não existem, mas apenas ideologias de classes, as "verdades marxistas" são apenas mentiras convenientes. 


Em um segundo exemplo, um naturalista, que crê que nada existe além do natural, se confrontado com um milagre hipotético, não será necessariamente convertido. Se um médico afirma a um naturalista que um paciente foi curado de uma doença terminal da noite pro dia, o naturalista não assumirá que houve um milagre, mas que a cura foi realizada por uma causa natural desconhecida à ciência. Porque seu compromisso, seu "ponto de referência", é outro, ele interpretará a cura de uma forma diferente.


NOTA:

[1] Greg Bahnsen dissertou longamente sobre o lugar do auto-engano na razão humana, a fim de esclarecer a negação da revelação de Deus por parte do não-cristão.


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